Autorreflexão x Auto-ilusão

A mente humana pode ser a maravilha de Olodumare ou um labirinto de Elénìnìí (o opositor de Orí). Tudo depende do seu livre arbítrio.

Para quem não sabe, Elénìnìí e Ajogun são poderes antigos, cuja a função é, de forma sorrateira, vil e oculta, prejudicar a pessoa no cumprimento do seu destino. Destino este averbado com Olodumare antes do advento do ser humano em Aiyê. São adversários da humanidade que, de diversas formas, atrapalham o progresso de cada indivíduo e do coletivo.

O que o ser humano não compreende, por ter pavor de sofrer, é que ambos são necessários em Aiyê (em Orun são inofensivos pois neste nível de existência, não há urgência imprescindível desta forma de atuação). E por que em Aiyê fazem assim? O ser humano tem dois métodos para aprender sobre seu destino:

  • Ouvindo os conselhos de Orunmilá pelo oráculo, seguindo orientações de Orisá e os saberes dos mais velhos sem se expor a vergonha, perda de tempo e tristeza.
  • Aprendendo pela dor, quando a pessoa “paga para ver” e se arrebenta. Por este método ainda existe a variante da pessoa NÃO entender e não assumir sua parcela de culpa na má escolha, projetando a somatória da falha nos ombros da outra(s) parte(s) envolvida(s), no meio, na ignorância (do verbo ignorar), até mesmo nos “Power Rangers”, menos em si mesma.

Então, Elénìnìí e Ajogun, na verdade o provocam, o desafiam, o incomodam até que você opte a pela opção correta: cumprir a sina que escolheu para esta vida, pois é a única forma de ser plenamente feliz. E é também, espiritualmente, melhor.

Elénìnìí, a Divindade do Infortúnio, objetiva aniquilar e colocar obstáculos às oportunidades de sucesso dos seres humanos (o opositor de Orí). Atua em nós após o primeiro banho de injé — parte sanguinolenta do parto, fato normal.

Elénìnìí nos faz esquecer por Orí Òde (cérebro, sistema nervoso central e cognição colhida pelos cinco sentidos), da missão averbada a Olodumare com o testemunho de Orunmilá e atrapalha a realização do destino, nos encantando  com o mundo material, seduzindo-nos a pensar que somos apenas o corpo e vivendo somente para satisfazer os desejos e necessidades dele nesta existência. Só quando cumprir totalmente a missão de desenvolvimento individual e de seu clã espiritual, Ori conquista sua transcendência final. Assim diz Ifá no Odu Irosún Meji.

E esta Divindade das mais antigas do panteão iorubá é muito eficaz. Elénìnìí atua na mente humana, fazendo você não enxergar a realidade e sim uma tela colorida pelas suas vontades sobreposta sobre a verdade. Ou seja: faz você ter convicção daquilo que você prefere acreditar.

Por isso é tão comum a pessoa ter um exame perfeito, rápido e cruamente realista dos problemas dos outros (sobre os quais não tem poder de decisão ou mesmo deve tentar interferência), mas ser totalmente míope no tocante aos seus próprios impasses.

Pelo poder de Elénìnìí, você julga o próximo com um  cortante realismo e é totalmente indulgente consigo. E o típico indivíduo que para tudo arranja desculpas ou explicações mirabolantes, até mesmo sobrenaturais para seus maus atos.

Quem procura legitimar suas más escolhas, primeiro, convence a si mesmo disto, para depois, sem pingo de vergonha, tentar “angariar améns” (ou seja parte para convencer os outros a aceitar e suas falhas e encarar com naturalidade os escandalosos engôdos nos quais se envolve). E, não é raro, arrastar amigos e parentes para situações escabrosas, exigindo que o façam com um sorriso nos lábios, sem jamais reclamar, discordar e muito menos se opor a estas ações abusivas, consequências naturais de suas tolices, que acabam afetando a si e aos mais próximos destes iludidos, numa ausência total de autorreflexão. Esse é o poder de Elénìnìí e Ajogun. Aí você vê as mais diferentes formas de erros crassos induzidos por este “Grupo da Catástrofe”.

E há sempre um conjunto de alienados que estimulam e dão apoio à pessoa iludida, pois tão perdidos quanto esta ou movidos por interesse (sendo quem lhe são de valia nesta obsessão, irão posteriormente lhe arrancar algum tipo de  vantagem). Entra em cena a obra dos Ajogun, constituem espíritos malignos — de longa data de prática nefasta, adversários desta ou de outras vidas — objetivando afetar suas “pessoas-alvos” no Aiyê.

São aliciadores de falhas, fraquezas, atitudes insensatas. Incentivam escolhas ruins para arruinar a vida. E o egoísmo humano adere rápido às más influências, pois quer fazer o que acha sem ter conhecimento, realizar seus desejos sem censura, na hora que lhe der vontade e obter graças não tendo mérito para alcançá-las, a qualquer preço.

Se encontra com facilidade indivíduos inteligentes atuando para o seu mal e/ou o mal dos outros (ladrões e assassinos de “colarinho branco”, homens e mulheres de bom nível intelectual e caráter benéfico submetendo-se a abusos físicos e mentais em relacionamentos doentios, pessoas sequiosas de vingança sobre o disfarce de “querer justiça”, personalidade obsessiva etc.), até mesmo quando inseridas entre iniciados ou pertencentes a classe sacerdotal: Babalawós, rabinos, Babalorixás, padres, pastores. Enfim, qualquer autoridade espiritual.

É fácil reconhecê-los pela falta de postura condizente ao ofício e por relações negativas com os omós (filhos, adeptos ou congregação). Frequentemente negando conhecimento, fingindo saberes que ignora, sendo negligente e ausente no cuidado com os zelados ou com vícios já na fase de doenças — dependentes químicos em qualquer tipo de substância, natural ou sintética, que modifica as funções normais de um organismo — sexólatras, pedófilos etc.

Por isso a autorreflexão é nossa maior aliada. Assim nos diz Ifá, no Odù Owónrín Ìretè:

Iniciação ou serviço espiritual feito (ebós, rituais e assentamentos) não concede ou transforma o caráter sem que o indivíduo acate a vontade dos Deuses.

Iniciação ou serviço espiritual feito (ebós, rituais e assentamentos) não concede graça sem conhecimento exercido no dia a dia, mesmo para o sacerdote. Os versos de Ifá, sem real atitude, morrem na boca. É apenas fala decorada em iorubá impecável se não há ìwa pélè (bom caráter).

Iniciação ou serviço espiritual feito (ebós, rituais e assentamentos) não realiza milagres se você não trata, e retira de si, seus negativos.

Antiguidade em vida sacerdotal, também não garante, por si só, potência espiritual positiva. Ifá nos diz  no Odu Ofun Ose, que:

É preferível um sacerdote jovem e honesto que um velho sem caráter

Iniciação ou serviço espiritual feito (ebós, rituais e assentamentos) não faz de alguém um verdadeiro sacerdote. Ifá diz no odú Ogbe Alara, falando de Ìwa (caráter) que é primordial a qualquer ser humano, manter postura reta no cotidiano, acatando os Orisà e honrando nossa família e nossos antepassados.

Sem autorreflexão, isso é impossível. No Odu Oworin Sindin, Ifá conta sobre a necessidade do homem cumprir o seu destino e cuidar do seu Orí para conseguir isso. Sem autorreflexão sincera, o indivíduo só escuta Elénìnìí e Ajogun, aliado ao seu egoísmo.

Por várias vezes escutamos “a chatice” das Iyalorixás, dos Babalawôs, dos nossos mais velhos sobre a total importância da realização dos sacrifícios prescritos (ebós, rituais, iniciações ou não quebrar  éewòs  — intérdito), e uma das principais é que não cumprir isto fortalece a atuação e abre “brechas” no nosso corpo, mente, escolhas para de Elénìnìí e os Ajoguns atuarem  com Òfò (prejuízo), Ègbà (falta de atitude, paralisia), Èjò (problemas ou confusões), Èpè (maldição), Èwòn (prisão interna ou externa) etc.

Por isso Orí é o Orixá Essencial e Primordial que deve ser cuidado por iniciados, ou não. Orí cuidado, se fortalece e não cede aos trabalhos destes poderes opositores. Quando alguém me pergunta se há garantia que ao fazer um rito ou ebó que possa lhe dar sobre alcançar seus objetivos, eu respondo:

“Se você cuidar de Ori e ouvir a vontade de Orisá, no meio negativo que vibra em Aiyê, com luta e trabalho, interno e externo, você tem chance de ser feliz plenamente. Vai depender da sua fé, escolhas e persistência no correto. Sem isso, você é um cego, com espada sem fio, indo para uma guerra épica.”

Existe magia aliada ao esforço operando milagre e não mágica concedendo desejos, como um gênio da lâmpada.

Um sábio Babalawô me deu esta pérola, uma pequena história para explicar o que acontece com quem não faz autorreflexão, cuida de Ori e não cumpre seu destino.

Havia uma mulher  que rogava diariamente com garra e desespero a Olodumare pela sua sorte. De tanto insistir, Olodumare disse a Orunmilá:

“Vá e conceda esta mulher o conhecimento (ebós, ritos e sacrifícios) para que ela consiga tudo que quer na vida.

Orunmilá, a Testemunha do Destino, procurou esta mulher nos locais onde ela deveria estar pois seu destino era ser bailarina… foi ao meio artístico, aos grupos mambembes, aos grandes teatros, companhias de balé, apresentações regionais enfim, a todo local aonde havia dança, para lhe entregar de presente os meios para ganha iré gbogbo (sorte). Cansado e sem encontrar a mulher, Orunmilá volta a Olodumare e lhe conta não ter a encontrado. Olodumare fecha os olhos e depois, pousa a mão carinhosamente sobre o ombro do Segundo na Criação, dizendo:

“Desconsidera, Orummilá. O destino dela era ser bailarina. Ela foi avisada pelo oráculo, pelos Orisás, pelos mais velhos e pelos amigos, mas ela preferiu, por livre escolha determinada pelo ego, se casar com lendário ladrão de bancos. Ela vai conseguir riqueza, fama e notoriedade, mas não com iré gbogbo (sorte). O ser humano só encontra felicidade plena quando cumpre seu destino.”


Aboru, Aboye, Abosise.

Iyá Rachel de Igbalé

Yanifá Yalodê Oyawande Bunmi

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